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domingo, 2 de abril de 2023

Há dias que têm tudo para não correr bem, sem que por isso deixem de ser belos

Há dias que não correm bem, embora nem por isso deixem de ser belos. Pelo menos, foi isso que li entretanto numa página de "Facebook" reportada à tarde de ontem.  Poderei ter interpretado mal.

Em matéria de facto, registe-se a concretização ontem de uma festa de anos, fora de prazo, uma reunião de gente que, no geral, não me dizia nada, e uma tarde de algazarra, escapando-me como é que alguém se fazia entender no meio de tanta algazarra. Isso, em concreto, pouco me interessava. O que me desconfortou sobremaneira foi terem-me convocado, de modo imperativo, para a festaça, assumindo que eu fosse daqueles que aceitassem o quer que seja para que me convoquem de forma imperativa e sem direito de audição. A esse título, bastou-me a convocação para a "guerra", há umas décadas, de que retirei nada, há exceção de 18 meses perdidos de uma vida em início de projeto de vida profissional, e alguns pequenos desconfortos em matéria de saúde.

Obviamente, a convocatória imperativa que me foi endereçada ontem só poderia ser do meu interesse, isto é, seria de incontornável interesse para mim, aparte fruir da algazarra em perspetiva, travar conhecimento com pessoas que não me dizem nada e fazem parte de memórias de vida de terceiros, e participar em conversas sobre temas que nunca me interessaram nem tenho a expetativa de algum dia virem a interessar nos anos, indefinidos, que me restam de vida. Foi uma convocatória feita por bem, no entanto. 

Pena foi que não tivesse podido responder positivamente à convocatória porque ainda prezo princípios de respeito por mim, e prezo muito mais a companhia do meu gato, o Fera, do que a de animadores(as) de algazarras, mesmo que muito bem intencionados(as).

Foi um dia, melhor, uma tarde bela, apesar de tudo! Para quem tivesse dúvidas disso, ficou a foto e a declaração afixada em página do “Facebook”. É verdade que se diz que, no “Facebook”, muito do que se informa hoje em dia cai no domínio das notícias falsas mas, neste particular, estou em admitir que não seja o caso. Que siga a algazarra e a desatenção em relação aos que não prezam esse tipo de manifestação e exigem respeito pela respetiva sensibilidade e modo de olhar para a vida e para os convívios que se organizam.

Disse!


José Cadima Ribeiro


quinta-feira, 29 de abril de 2021

Desencontros

Infelizmente, em razão de circunstâncias diversas, a nossa vida também se faz de desencontros, mesmo quando  temos por meta única o encontro. 

Não és capaz de imaginar quanto me pesam os nossos desencontros. Não posso, no entanto, não reagir quando sinto que fico para trás nas tuas prioridades, por desatenção, porventura. Nesse caso, ficaria magoado comigo mesmo, e deixaria espaço para que o desencontro se repetisse nos mesmos termos. Não há ninguém com que eu seja mais exigente que comigo. Anota isso e anota o meu amor por ti. 

José Cadima 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Tempos difíceis

São efetivamente tempos muito muitos os que vivemos desde março de há um ano, sem data clara de termo que possamos antecipar. A dificuldade maior começa por ser a crise sanitária mas há outras derivadas: económica, social, emocional. A gestão destes tempos e das emoções que gera não é fácil tanto mais que os sinais que nos chegam são contraditórios, desde logo os que resultam da gestão pública do fenómeno mas, especialmente, da mensagem que é passada pela comunicação social, que tem posto a claro estar enxameada por péssimos jornalistas. O sensacionalismo e a mensagem política parece motivá-los bastante mais do que a sensibilização e esclarecimento do cidadão comum. A tudo isto se juntam as "certezas" dos comunicadores das redes sociais.

Num tal cenário, não é surpreendente que possamos estar mais sensíveis e porventura inseguros, precisando de  toda a serenidade possível para lidar com os compromissos do dia-a-dia, e compreensão para gestos ou palavras que podem sair mais intempestivos. Precisamos todos, sublinho, e não apenas alguns. Num tal cenário, há desencontros que não deveriam ocorrer, que são o contrário do que precisamos, mas ocorrem, até porque facilmente alguns geram a convicção de que acertam sempre e estão para além de qualquer gesto menos cordial ou desrespeitador da sensibilidade dos outros.

Tal como a crise sanitária há-de ser superada, também os seus efeitos hão-de ser ultrapassados. As perdas derivadas são difíceis de estimar, sendo algumas incomensuráveis, nomeadamente as expressas em perdas de vidas, temos no entanto que acreditar que o futuro continuará a dar-nos oportunidade de encontro e de esperança. Havemos de ficar bem e o espaço para o abraço, para o passeio de mão dada hão-de voltar a acontecer.


José Cadima 

domingo, 29 de dezembro de 2019

Até sempre Han Solo, Luke e Leia!

Na semana que agora termina fui assistir ao último filme de cinema da série “Star Wars”. O filme teve em mim um grande impacte emocional. Tal qual a narrativa do filme, também senti que se encerrava nessa ocasião um período crucial da minha vida, isto é, senti que estava perante o final de um percurso.
Ao longo de várias décadas, assistimos ao emergir de personagens e contextos ficcionais e ao respetivo ocaso. Esse percurso é um certo retrato do universo ficcional do seu realizador/produtor, George Lucas, e de alguns de nós, contemporâneas da série, como é, o meu caso. A morte de Han Solo, Luke Skywalker e de Leia, e a ascensão de Rey são a expressão de um movimento geracional porque todos nós passamos e que eu senti de forma particular, pela minha afeição às personagens e pelo momento da minha vida que atravesso. Com os três primeiros personagens que enumero, morri também eu, numa importante medida.
Ao longo da minha vida, percorri muito mundo, enfrentei muitos desafios, desafiei-me várias vezes a enfrentar realidades de galáxias diferentes daquelas em que vivi nos períodos precedentes. Sobrevivi até hoje, mais desgastado, mais fragilizado, com vontade de recolher-me em espaços de atuação e ambiências afetivas mais acolhedoras. Nesta última dimensão, têm-me sido difícil encontrar o recolhimento que ambiciono, por culpa minha, certamente, mas também porque cada um concebe recolhimento e afetividade de formas distintas e, algumas vezes, falha a comunicação e a capacidade de entender os anseios dos outros.
A fechar 2019, no contexto de uma gestão planeada de um retiro da exposição pública, na proximidade de uma retirada de um percurso profissional longo e exigente, o desaparecimento das personagens ficcionais de Solo, Luke e Leia, esta, que também desapareceu recentemente do mundo terreno, não podia ter tido efeito em mim senão o que teve. Pergunto-me se serei capaz de reerguer-me, seguro que estou que me vão faltando forças e engenho para enfrentar as lutas com que o quotidiano teima em confrontar-me.
Neste desespero de ausência de respostas para esses desafios, vou-me deixando guiar pelo instinto e pela experiência de uma vida, pessoal e profissional, que nunca me deu tréguas. Daí, porventura, vêm fundamentos para resistência a culturas e posturas com que nunca contemporizei, podendo parecer mais fácil ceder perante elas. Não é próprio da minha identidade fazer tal. Procurar o amor, o repouso, ouvir os outros, nunca deixei do fazer. Aprendi muito, concretizei muito, percorri muito mundo suportado nessas expressões. Quero continuar a fazê-lo na medida do que me for possível, das minhas forças, e do apoio que possa garantir, da minha mulher, Paula Cristina, da minha mãe, do meu irmão e dos meus filhos, em particular daquele  que, até hoje, se dispôs a construir um percurso que acaba por ser a natural sucessão daquele que protagonizei, num quadro geracional que é o dele. Que preciso de muito apoio, carinho e amor para prosseguir, disso não me resta qualquer dúvida.
Obrigado José Pedro! Obrigado Cris! Não te esqueças, Cris, que te amo, mesmo quando não sou capaz do verbalizar como desejavas que o fizesse, e quando te digo que não me identifico com os caminhos que queres percorrer. Tendo percorrido muito mundo, conheço alguns segredos que te estão vedados, para o bem e para o mal, e que me dizem para não ires por aí. Não duvides que quero continuar a fazer caminho contigo. Os caminhos a fazer temos que ser capazes dos escolher juntos. Porquê fazer caminho por trilhos que sei serem inóspitos.
Até sempre Han Solo, Luke e Leia! Que a força te continue a assistir, Rey!

José Cadima

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Viagem

Afastados pelas solicitações e rotinas do dia-a-dia,
olhamos para a viagem como oportunidade de reencontro.
Acabamos por repetir gestos e respostas a solicitações
que nos afastam e privam do que deveria ser o foco da viagem,
enquanto fuga ao quotidiano
e espaço de troca de afetos.
Incapazes de sermos críticos de nós mesmos,
procuramos no outro desculpas para a frustração que vamos acumulando.
Pese tudo o que o dificulta, o encontro é possível,
desde que o procuremos com empenho
e saibamos dar prioridade às dimensões mais essenciais de nós.
Corro na tua direção, de abraços abertos,
ansiando o teu abraço...

José Cadima

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Estar contigo

Amor, dizes tu. 
Estar contigo, 
ficar contigo até aos últimos dias da minha existência 
é opção que assumo, por amor, 
por vontade de viver, enquanto for tempo de viver. 
Emoções são coisa complicada, 
que ora nos amarra ora nos desconforta. 
Conforto, compreensão, entrega, amor, pois claro, são o que espero de ti, 
certo que são a minha divisa quanto penso em ti. 
 Nada me conforta mais que estar contigo. 
Sei-o bem por quanto me desconfortam as tuas ausências, 
algumas com muito pouco sentido.  
Algumas dessas ausências, por mais curtas que te pareçam, 
soam-me a eternidade. 
 Compreendo, respeito a tua ânsia de afirmação, 
o teu desejo de reconhecimento do esforço que fazes, 
das tuas qualidades e competência. 
Entretanto, tudo isso não vale mais que o tempo que reservamos para nós, 
o tempo dos nossos encontros, 
 isto é, o tempo em que nós contamos acima de todas as outras coisas. 
Estar contigo é a opção que quis fazer, 
 Amor. 

José Cadima 
(2018.08.09)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Eu e louraça, juntos e ao vivo, num dia com particular significado

A foto foi tirada noutro lugar, há poucas semanas, mas é como fosse de hoje. Juntos e ao vivo, de facto, empenhados em continuar a percorrer caminho juntos. Obrigado por estares comigo, e pelas mensagens de carinho. És um amor. O meu amor! José Cadima

domingo, 19 de novembro de 2017

Importas-me só tu

Sejam "bruxinhas" ou "queridas", importas-me só tu. Digo-o atento aos teus 23 aninhos mal feitos mas di-lo-ia do mesmo modo se tivesses um par de anos mais. 

Não imaginas quanta falta me fazes, quotidianamente.


José Cadima

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

+ Saudade

S ozinho
a milhares de kms
u ma
d or um fogo que arde sem se ver e uma
a flição intensa
d omina-me o pensamento
e os sentidos
   Desabituado de te ter longe,
   (e)
   sinto-me sem referências
   e anseio o momento do reencontro.
   (j)
   O amor não devia trazer tanto desamparo.

José Cadima 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Itajubá

Sento-me numa mesa no interface do hotel com o exterior. No horizonte próximo tenho a piscina com as suas águas convencionalmente em tom de azul, hoje, deserta de gente, e no horizonte distante, mas não muito, o casario da cidade, espraiado pelas encostas dos montes, e as montanhas envolventes, propriamente ditas. Lembram-me intensamente Ponte de Lima. Têm a vantagem a vantagem de permanecerem, todas, em tom verde-escuro. Paradoxalmente, tenho Ponte de Lima tão perto.
Ladeando a piscina, aparte uma parafernália de mesas e cadeiras brancas e alguns guarda-sóis, há palmeiras vaidosas. Desafortunadamente, os colares aparecem já bastante desgastados, o que lhes tira cor e brilho. São fruto do uso, e a consequência da vaidade das palmeiras. Os colares, inevitavelmente, conduzem-me a ti, pelos colares e pela descoberta das palmeiras vaidosas, vai para uns anos, algures na Madeira, creio. Mais tarde, reencontrámo-los em vários outros lugares, do Brasil ao México e aos Açores. Não me recordo se as havia, também, na Sicília.
Daí, isto é, da Sicília, recordo-me bem das árvores jurássicas, que havíamos descoberto na Uberlândia, uma cidade prima da Disneylândia, como sempre me soou. Foi a nossa primeira viagem ao Brasil, juntos. Marco primeiro dessa viagem foi, sem sombra de dúvida, a descoberta do desenho das cidades da região pelos “alinhadores”, evidenciada pelas luzes captadas em pleno voo noturno. Fantástica vista. Fantástico trabalho de ordenamento urbano que, em terra, não tinha espelho em matéria de paisagem e beleza de desenho.
Como te disse antes, vêm-se muitas coisas surpreendentes e aprende-se muito nestas viagens, querendo aprender.

José Cadima
(2017/11/13)

Algures, sobre o Atlântico (II)

Estou em viagem e vou trabalhar, quer dizer, assegurar uns quantos seminários  e interagir com um número inserto de professores e investigadores brasileiros sobre o que é ser investigador hoje em dia, em Portugal e no mundo. Vou falar sobre a investigação que faço, as minhas publicações e, sobretudo, sobre a minha vivência e reflexão sobre a matéria.
Não sei se tenho muito para ensinar. Não sei, rigorosamente, quem serão os meus interlocutores. Tenho, é bem verdade, uma vivência razoavelmente longa que, porventura, podem ser fonte de ensinamento para alguém. Queira esse alguém olhar para o mundo académico a partir de uma perspetiva mais europeia e universal.
Vou a lugares novos, de que nunca tinha ouvido falar (Itajubá) e vou a visitar lugares onde já estive (Taubaté), ao encontro de gente que vou reencontrar. Vou com a curiosidade de descobrir ligares inéditos (novos mundos), surpreendentes, quiçá, e olhar as modificações ocorridas nos lugares das minhas memórias. É certo, o Brasil de hoje não é, infelizmente, o Brasil de há dez anos, 5 ou, mesmo, 3. Faço votos de que a descrença e desencanto dos locais fiquem aquém do que imagino. Tive a oportunidade de visitar o Brasil em momentos de esperança, de otimismo, e eram esses os tempos que queria que perdurassem, embora me tivesse parecido na altura que algumas dimensões do que estava a ser construído assentavam em pés-de-barro. Acabou por se confirmar o que a minha intuição e leitura dos acontecimentos me indicavam mais depressa do que poderia antecipar, desgraçadamente para uma grande maioria dos brasileiros. Haverá sempre aqueles que são ganhadores, independentemente dos tempos e circunstâncias.
Algures, sobre o Atlântico, a oito horas de voo do meu destino mais imediato (São Paulo), recordo a última viagem que fiz ao Brasil, a São Paulo, entre outros lugares, que não foi particularmente feliz, por diversas razões. Ocasiões que deviam ser de encontro, desembocam, de quando em quando, em afirmações de “non sense”. Recordo a visita ao Museu da Língua Portuguesa, que viria a arder um ano depois (ignoro se entretanto foi ou está a ser reconstruído) e ao Teatro Municipal, um momento fantástico, de encontro de imagens tão próximas quanto o são as do Teatro Circo, em Braga, e do Teatro Municipal de São Paulo. Um acontecimento inolvidável de uma visita a cidade globalmente desinteressante, suja, desestruturada.
Desta vez, como disse, o meu destino final não é São Paulo, e regozijo-me com isso, pelo menos nesta ocasião. O que direi à posteriori está ainda longe de poder ser antecipado. No momento, do meu banco, leio: São Paulo, 6043 Kms de distância, 7,38 horas para a aterragem. No meu pensamento, segues tu, tão distante, e a expetativa do que será a “viagem”, na sua materialização nas terras e nas gentes que encontrarei. Irás permanecer presente no meu pensamento durante todos os dias da minha ausência por aquelas terras.

José Cadima
(2017/11/11)